domingo, 28 de julho de 2013

Homilia do Papa Francisco - Santa Missa pela XXVIII Jornada Mundial da Juventude

Venerados e amados Irmãos no episcopado e no sacerdócio,

Queridos jovens!

«Ide e fazei discípulos entre todas as nações». Com estas palavras, Jesus se dirige a cada um de vocês, dizendo: «Foi bom participar nesta Jornada Mundial da Juventude, vivenciar a fé junto com jovens vindos dos quatro cantos da terra, mas agora você deve ir e transmitir esta experiência aos demais». Jesus lhe chama a ser um discípulo em missão! Hoje, à luz da Palavra de Deus que acabamos de ouvir, o que nos diz o Senhor? Três palavras: Ide, sem medo, para servir.

1. Ide. Durante estes dias, aqui no Rio, vocês puderam fazer a bela experiência de encontrar Jesus e de encontrá-lo juntos, sentindo a alegria da fé. Mas a experiência deste encontro não pode ficar trancafiada na vida de vocês ou no pequeno grupo da paróquia, do movimento, da comunidade de vocês. Seria como cortar o oxigênio a uma chama que arde. A fé é uma chama que se faz tanto mais viva quanto mais é partilhada, transmitida, para que todos possam conhecer, amar e professar que Jesus Cristo é o Senhor da vida e da história (cf. Rm 10,9).

Mas, atenção! Jesus não disse: se vocês quiserem, se tiverem tempo, mas: «Ide e fazei discípulos entre todas as nações». Partilhar a experiência da fé, testemunhar a fé, anunciar o Evangelho é o mandato que o Senhor confia a toda a Igreja, também a você. É uma ordem sim; mas não nasce da vontade de domínio ou de poder, nasce da força do amor, do fato que Jesus foi quem veio primeiro para junto de nós e nos deu não somente um pouco de Si, mas se deu por inteiro, deu a sua vida para nos salvar e mostrar o amor e a misericórdia de Deus. Jesus não nos trata como escravos, mas como homens livres, amigos, como irmãos; e não somente nos envia, mas nos acompanha, está sempre junto de nós nesta missão de amor.
Para onde Jesus nos manda? Não há fronteiras, não há limites: envia-nos para todas as pessoas. O Evangelho é para todos, e não apenas para alguns. Não é apenas para aqueles que parecem a nós mais próximos, mais abertos, mais acolhedores. É para todas as pessoas. Não tenham medo de ir e levar Cristo para todos os ambientes, até as periferias existenciais, incluindo quem parece mais distante, mais indiferente. O Senhor procura a todos, quer que todos sintam o calor da sua misericórdia e do seu amor.

De forma especial, queria que este mandato de Cristo -”Ide” – ressoasse em vocês, jovens da Igreja na América Latina, comprometidos com a Missão Continental promovida pelos Bispos. O Brasil, a América Latina, o mundo precisa de Cristo! Paulo exclama: «Ai de mim se eu não pregar o evangelho!» (1Co 9,16). Este Continente recebeu o anúncio do Evangelho, que marcou o seu caminho e produziu muito fruto. Agora este anúncio é confiado também a vocês, para que ressoe com uma força renovada. A Igreja precisa de vocês, do entusiasmo, da criatividade e da alegria que lhes caracterizam! Um grande apóstolo do Brasil, o Bem-aventurado José de Anchieta, partiu em missão quando tinha apenas dezenove anos! Sabem qual é o melhor instrumento para evangelizar os jovens? Outro jovem! Este é o caminho a ser percorrido!

2. Sem medo. Alguém poderia pensar: «Eu não tenho nenhuma preparação especial, como é que posso ir e anunciar o Evangelho»? Querido amigo, esse seu temor não é muito diferente do sentimento que teve Jeremias, um jovem como vocês, quando foi chamado por Deus para ser profeta. Acabamos de escutar as suas palavras: «Ah! Senhor Deus, eu não sei falar, sou muito novo». Deus responde a vocês com as mesmas palavras dirigidas a Jeremias: «Não tenhas medo… pois estou contigo para defender-te» (Jr 1,8). Deus está conosco!
«Não tenham medo!» Quando vamos anunciar Cristo, Ele mesmo vai à nossa frente e nos guia. Ao enviar os seus discípulos em missão, Jesus prometeu: «Eu estou com vocês todos os dias» (Mt 28,20). E isto é verdade também para nós! Jesus não nos deixa sozinhos, nunca lhes deixa sozinhos! Sempre acompanha a vocês!

Além disso, Jesus não disse: «Vai», mas «Ide»: somos enviados em grupo. Queridos jovens, sintam a companhia de toda a Igreja e também a comunhão dos Santos nesta missão. Quando enfrentamos juntos os desafios, então somos fortes, descobrimos recursos que não sabíamos que tínhamos. Jesus não chamou os Apóstolos para viver isolados, chamou-lhes para que formassem um grupo, uma comunidade. Queria dar uma palavra também a vocês, queridos sacerdotes, que concelebram comigo esta Eucaristia: vocês vieram acompanhando os seus jovens, e é uma coisa bela partilhar esta experiência de fé! Mas esta é uma etapa do caminho. Continuem acompanhando os jovens com generosidade e alegria, ajudem-lhes a se comprometer ativamente na Igreja; que eles nunca se sintam sozinhos!

3. A última palavra: para servir. No início do salmo proclamado, escutamos estas palavras: «Cantai ao Senhor Deus um canto novo» (Sl 95, 1). Qual é este canto novo? Não são palavras, nem uma melodia, mas é o canto da nossa vida, é deixar que a nossa vida se identifique com a vida de Jesus, é ter os seus sentimentos, os seus pensamentos, as suas ações. E a vida de Jesus é uma vida para os demais. É uma vida de serviço.

São Paulo, na leitura que ouvimos há pouco, dizia: «Eu me tornei escravo de todos, a fim de ganhar o maior número possível» (1 Cor 9, 19). Para anunciar Jesus, Paulo fez-se «escravo de todos». Evangelizar significa testemunhar pessoalmente o amor de Deus, significa superar os nossos egoísmos, significa servir, inclinando-nos para lavar os pés dos nossos irmãos, tal como fez Jesus.

Ide, sem medo, para servir. Seguindo estas três palavras, vocês experimentarão que quem evangeliza é evangelizado, quem transmite a alegria da fé, recebe alegria. Queridos jovens, regressando às suas casas, não tenham medo de ser generosos com Cristo, de testemunhar o seu Evangelho. Na primeira leitura, quando Deus envia o profeta Jeremias, lhe dá o poder de «extirpar e destruir, devastar e derrubar, construir e plantar» (Jr 1,10). E assim é também para vocês. Levar o Evangelho é levar a força de Deus, para extirpar e destruir o mal e a violência; para devastar e derrubar as barreiras do egoísmo, da intolerância e do ódio; para construir um mundo novo. Jesus Cristo conta com vocês! A Igreja conta com vocês! O Papa conta com vocês! Que Maria, Mãe de Jesus e nossa Mãe, lhes acompanhe sempre com a sua ternura: «Ide e fazei discípulos entre todas as nações». Amém.

quarta-feira, 24 de julho de 2013

Homilia do Papa Francisco na missa rezada na Basílica de Nossa Senhora Aparecida

Venerados irmãos no episcopado e sacerdócio, queridos irmãos e irmãs!

Quanta alegria me dá vir à casa da Mãe de cada brasileiro, o Santuário de Nossa Senhora Aparecida. No dia seguinte à minha eleição como Bispo de Roma fui visitar a Basílica de Santa Maria Maior, para confiar a Nossa Senhora o meu ministério.

Hoje, eu quis vir aqui para suplicar à Maria, nossa Mãe, o bom êxito da Jornada Mundial da Juventude e colocar aos seus pés a vida do povo latino-americano.
Encorajemos a generosidade que caracteriza os jovens, acompanhando-lhes no processo de se tornarem protagonistas da construção de um mundo melhor: eles são um motor potente para a Igreja e para a sociedade. Eles não precisam só de coisas, precisam sobretudo que lhes sejam propostos aqueles valores imateriais que são o coração espiritual de um povo, a memória de um povo"
Papa Francisco
Queria dizer-lhes, primeiramente, uma coisa. Neste Santuário, seis anos atrás, quando aqui se realizou a 5ª Conferência Geral do Episcopado da América Latina e do Caribe, pude dar-me conta pessoalmente de um fato belíssimo: ver como os bispos – que trabalharam sobre o tema do encontro com Cristo, discipulado e missão – eram animados, acompanhados e, em certo sentido, inspirados pelos milhares de peregrinos que vinham diariamente confiar a sua vida a Nossa Senhora: aquela Conferência foi um grande momento de vida de Igreja.

E, de fato, pode-se dizer que o Documento de Aparecida nasceu justamente deste encontro entre os trabalhos dos Pastores e a fé simples dos romeiros, sob a proteção maternal de Maria. A Igreja, quando busca Cristo, bate sempre à casa da Mãe e pede: “Mostrai-nos Jesus”. É de Maria que se aprende o verdadeiro discipulado. E, por isso, a Igreja sai em missão sempre na esteira de Maria.

Assim, de cara à Jornada Mundial da Juventude que me trouxe até o Brasil, também eu venho hoje bater à porta da casa de Maria, que amou e educou Jesus, para que ajude a todos nós, os Pastores do Povo de Deus, aos pais e aos educadores, a transmitir aos nossos jovens os valores que farão deles construtores de um país e de um mundo mais justo, solidário e fraterno.

Para tal, gostaria de chamar atenção para três simples posturas: conservar a esperança; deixar-se surpreender por Deus; viver na alegria.

Conservar a esperança: A segunda leitura da missa apresenta uma cena dramática: uma mulher, figura de Maria e da Igreja, sendo perseguida por um dragão – o diabo – que quer lhe devorar o filho. A cena, porém, não é de morte, mas de vida, porque Deus intervém e coloca o filho a salvo.

Quantas dificuldades na vida de cada um, no nosso povo, nas nossas comunidades, mas, por maiores que possam parecer, Deus nunca deixa que sejamos submergidos. Frente ao desânimo que poderia aparecer na vida, em quem trabalha na evangelização ou em quem se esforça por viver a fé como pai e mãe de família, quero dizer com força: Tenham sempre no coração esta certeza! Deus caminha a seu lado, nunca lhes deixa desamparados!

Nunca percamos a esperança! Nunca deixemos que ela se apague nos nossos corações! O “dragão”, o mal, faz-se presente na nossa história, mas ele não é o mais forte. Deus é o mais forte, e Deus é a nossa esperança! É verdade que hoje, mais ou menos todas as pessoas, e também os nossos jovens, experimentam o fascínio de tantos ídolos que se colocam no lugar de Deus e parecem dar a esperança: o dinheiro, o poder, o sucesso, o prazer.

Frequentemente, uma sensação de solidão e de vazio entra no coração de muitos e conduz à busca de compensações, destes ídolos passageiros. Queridos irmãos e irmãs, sejamos luzeiros de esperança! Tenhamos uma visão positiva sobre a realidade.

Encorajemos a generosidade que caracteriza os jovens, acompanhando-lhes no processo de se tornarem protagonistas da construção de um mundo melhor: eles são um motor potente para a Igreja e para a sociedade. Eles não precisam só de coisas, precisam sobretudo que lhes sejam propostos aqueles valores imateriais que são o coração espiritual de um povo, a memória de um povo.

Neste santuário, que faz parte da memória do Brasil, podemos quase que apalpá-los: espiritualidade, generosidade, solidariedade, perseverança, fraternidade, alegria; trata-se de valores que encontram a sua raiz mais profunda na fé cristã.

A segunda postura: Deixar-se surpreender por Deus. Quem é homem e mulher de esperança – a grande esperança que a fé nos dá – sabe que, mesmo em meio às dificuldades, Deus atua e nos surpreende. A história deste Santuário serve de exemplo: três pescadores, depois de um dia sem conseguir apanhar peixes, nas águas do Rio Paraíba, encontram algo inesperado: uma imagem de Nossa Senhora da Conceição.

Quem poderia imaginar que o lugar de uma pesca infrutífera, tornar-se-ia o lugar onde todos os brasileiros podem se sentir filhos de uma mesma Mãe? Deus sempre surpreende, como o vinho novo, no Evangelho que ouvimos. Deus sempre nos reserva o melhor. Mas pede que nos deixemos surpreender pelo seu amor, que acolhamos as suas surpresas. Confiemos em Deus!

Longe d’Ele, o vinho da alegria, o vinho da esperança, se esgota. Se nos aproximamos d’Ele, se permanecemos com Ele, aquilo que parece água fria, aquilo que é dificuldade, aquilo que é pecado, se transforma em vinho novo de amizade com Ele.

A terceira postura: Viver na alegria. Queridos amigos, se caminhamos na esperança, deixando-nos surpreender pelo vinho novo que Jesus nos oferece, há alegria no nosso coração e não podemos deixar de ser testemunhas dessa alegria.

O cristão é alegre, nunca está triste. Deus nos acompanha. Temos uma mãe que sempre intercede pela vida dos seus filhos, por nós, como a rainha Ester na primeira leitura. Jesus nos mostrou que a face de Deus é a de um Pai que nos ama. O pecado e a morte foram derrotados.

O cristão não pode ser pessimista! Não pode ter uma cara de quem parece num constante estado de luto. Se estivermos verdadeiramente enamorados de Cristo e sentirmos o quanto Ele nos ama, o nosso coração se “incendiará” de tal alegria que contagiará quem estiver ao nosso lado. Como dizia Bento XVI, aqui, neste santuário: “o discípulo sabe que sem Cristo não há luz, não há esperança, não há amor, não há futuro”.

Queridos amigos, viemos bater à porta da casa de Maria. Ela abriu-nos, fez-nos entrar e nos aponta o seu Filho. Agora Ele nos pede: “Fazei o que Ele vos disser”. Sim, Mãe nossa, nos comprometemos a fazer o que Jesus nos disser! E o faremos com esperança, confiantes nas surpresas de Deus e cheios de alegria. Assim seja."

segunda-feira, 22 de julho de 2013

Primeiro discurso do Papa Francisco no Brasil

Quis Deus na sua amorosa providência que a primeira viagem internacional do meu Pontificado me consentisse voltar à América Latina, precisamente ao Brasil, nação que se gloria de seus sólidos laços com a Sé Apostólica e dos profundos sentimentos de fé e amizade que sempre a uniram de modo singular ao Sucessor de Pedro. Dou graças a Deus pela sua benignidade.

Aprendi que para ter acesso ao Povo Brasileiro, é preciso ingressar pelo portal do seu imenso coração: por isso permitam-me que nesta hora eu possa bater delicadamente a esta porta. Peço licença para entrar e transcorrer esta semana com vocês. Não tenho ouro nem prata, mas trago o que de mais precioso me foi dado: Jesus Cristo! Venho em seu Nome para alimentar a chama de amor fraterno que arde em cada coração; e desejo que chegue a todos e a cada um a minha saudação: "A paz de Cristo esteja com vocês!"

Saúdo com deferência a Senhora Presidenta e os ilustres membros do seu Governo. Obrigado pelo seu generoso acolhimento e por suas palavras que externaram a alegria dos brasileiros pela minha presença em sua Pátria. Cumprimento também o Senhor Governador deste Estado, que amavelmente nos recebe na Sede do Governo e o Senhor Prefeito do Rio de Janeiro, bem como os Membros do Corpo Diplomático acreditado junto ao Governo Brasileiro, as demais Autoridades presentes e todos quantos e se prodigalizaram para tornar realidade esta minha visita.

Quero dirigir uma palavra de afeto aos meus irmãos no Episcopado, sobre quem pousa a tarefa de guiar o Rebanho de Deus neste imenso País, e às suas amadas Igrejas Particulares. Esta minha visita outra coisa não quer senão continuar a missão pastoral própria do Bispo de Roma de confirmar os seus irmãos na Fé em Cristo, de animá-los a testemunhar as razões da Esperança que d´Ele vem e de incentivá-los a oferecer a todos as inesgotáveis riquezas do seu Amor.

O motivo principal da minha presença no Brasil, como é sabido, transcende as suas fronteiras. Vim para a Jornada Mundial da Juventude. Vim para encontrar os jovens que vieram de todo o mundo, atraídos pelos braços abertos do Cristo Redentor. Eles querem agasalhar-se no seu abraço para, junto de seu Coração, ouvir de novo o seu potente e claro chamado: Ide e fazei discípulos entre todas as nações.

Estes jovens provêm dos diversos continentes, falam línguas diferentes, são portadores de variadas culturas e, todavia, em Cristo encontram as respostas para suas mais altas e comuns aspirações e podem saciar a fome de verdade límpida e de amor autêntico que os irmanem para além de toda diversidade.

Cristo abre espaço para eles, pois sabe que energia alguma pode ser mais potente que aquela que se desprende do coração dos jovens quando conquistados pela experiência da sua amizade. Cristo "bota fé" nos jovens e confia-lhes o futuro de sua própria causa: "Ide, fazer discípulos". Ide para além das fronteiras do que é humanamente possível e criem um mundo de irmãos. Também os jovens "botam fé" em Cristo. Eles não têm medo de arriscar a única vida que possuem porque sabem que não serão desiludidos.

Ao iniciar esta minha visita ao Brasil, tenho consciência de que, ao dirigir-me aos jovens, falarei às suas famílias, às suas comunidades eclesiais e nacionais de origem, às sociedades nas quais estão inseridos, aos homens e às mulheres dos quais, em grande medida, depende o futuro destas gerações.

Os pais usam dizer por aqui: "os filhos são a menina dos nossos olhos". Que bela expressão da sabedoria brasileira que aplica aos jovens a imagem da pupila dos olhos, janela pela qual entra a luz revelando-nos o milagre da visão! O que vai ser de nós, se não tomarmos conta dos nossos olhos? Como haveremos de seguir em frente? O meu auspício é que, nesta semana, cada um de nós se deixe interpelar por esta desafiadora pergunta.

A juventude é a janela pela qual o futuro entra no mundo e, por isso, nos impõe grandes desafios. A nossa geração se demonstrará à altura da promessa contida em cada jovem quando souber abrir-lhe espaço; isso significa tutelar as condições materiais e imateriais para o seu pleno desenvolvimento; oferecer a ele fundamentos sólidos, sobre os quais construir a vida; garantir-lhe segurança e educação para que se torne aquilo que ele pode ser; transmitir-lhe valores duradouros pelos quais a vida mereça ser vivida, assegurar-lhe um horizonte transcendente que responda à sede de felicidade autentica, suscitando nele a criatividade do bem; entregar-lhe a herança de um mundo que corresponda à medida da vida humana; despertar nele as melhores potencialidade para que seja sujeito do próprio amanhã e corresponsável do destino de todos.Com essas atitudes recebemos hoje o futuro

Concluindo, peço a todos a delicadeza da atenção e, se possível, a necessária empatia para estabelecer um diálogo de amigos. Nesta hora, os braços do Papa se alargam para abraçar a inteira nação brasileira, na sua complexa riqueza humana, cultural e religiosa. Desde a Amazônia até os pampas, dos sertões até o Pantanal, dos vilarejos até as metrópoles, ninguém se sinta excluído do afeto do Papa. Depois de amanhã, se Deus quiser, tenho em mente recordar-lhes todos a Nossa Senhora Aparecida, invocando sua proteção materna sobre seus lares e famílias. Desde já a todos abençôo. Obrigado pelo acolhimento!!

domingo, 21 de julho de 2013

Os jovens à luz da Fé

Estamos num período muito especial para a história da Igreja e, de modo específico, para a Igreja do Brasil! Tivemos a graça do anúncio da canonização próxima de dois gigantes da fé, João Paulo II e João XXIII, e o lançamento da primeira encíclica do Papa Francisco, a “Lumem Fidei”, texto iniciado por Bento XVI, completando a trilogia, amor (“Deus Caritas est”) e sobre a esperança (“Spes Salvi”).

Chegaram à nossa querida Arquidiocese algumas relíquias dos santos padroeiros e intercessores da JMJ, em especial, a do Papa Beato João Paulo II. Também chegaram os símbolos da Jornada Mundial da Juventude: a Cruz e o ícone de Nossa Senhora, que foram recebidos por milhares de jovens. Tudo isso preparando nossos corações para acolher nosso amado Papa Francisco e a milhões de peregrinos que já começam a desembarcar em nossa querida nação tanto para a JMJ aqui no Rio de Janeiro como para a Semana Missionária, período de evangelização que ocorrerá em todas as dioceses. Ela antecede e prepara o ardor missionário e abre os corações dos jovens a uma melhor escuta do Espírito Santo, que atuará de modo único e especial durante a JMJ-Rio2013. Foi divulgado também o decreto da Penitenciária Apostólica, concedendo indulgências por ocasião da XXVIII Jornada Mundial da Juventude.

Os trabalhos são muitos, mas me parece impossível não encher-nos de alegria e entusiasmo pelos imensos sinais que Deus está enviando a cada um de nós. Ele deseja algo grande. Não é fruto do acaso ou apenas da vontade humana o fato de a JMJ ocorrer neste ano no Brasil e perto de eventos tão especiais.

As dificuldades também são imensas e muitas vezes parecem superar as soluções. Sinto-me pessoalmente interpelado por Deus. Vejo que Ele é o primeiro interessado. E diante de tudo o que ocorre, surge em minha alma uma pergunta: o que Deus quer de nós?

Tenho certeza de que Deus sonha e deseja ardentemente nossa felicidade. Diante das crescentes dificuldades e, ao mesmo tempo, desse imenso amor divino, parece-me impossível não querer responder à altura de sua misericórdia. O que Deus está planejando para a Juventude Católica de todo o mundo? Para os jovens de nosso Brasil e do Rio de Janeiro?

Para responder a esta inquietação que assola meu coração, nada melhor do que guiar-nos pela nova encíclica “Lumem Fidei”, que foi promulgada justamente às vésperas da JMJ e neste Ano da Fé.

Não ter vergonha de nossa fé

O primeiro convite que o Papa faz é: não ter vergonha de nossa fé. “Cristo é o verdadeiro Sol, cujos raios dão vida” (Cf. 1). Atualmente somos quase que obrigados a pensar que a fé é um inimigo do ser humano. Que a fé foi um elemento importante para as sociedades antigas, mas que para a modernidade seria um obstáculo para o desenvolvimento da razão, do progresso e da liberdade. Ela “seria uma espécie de ilusão de luz, que impede o nosso caminho de homens livres rumo ao amanhã” (Cf. 2).

É muito comum afirmar que a fé é um salto no vazio, um passo no escuro, um elemento subjetivo que deve ser confinado dentro do campo das opiniões pessoais. Assim, não percebemos que a fé cai no relativismo e a privamos de sua característica essencial: ser luz através da qual a realidade pode ser vislumbrada em toda sua profundidade. A fé não é um obstáculo, ao contrário, só quem vive sua fé consegue descobrir quem realmente é em todas suas dimensões.

Não devemos dar por descontada a fé

Antes de tudo a fé é dom de Deus, mas que frutifica na medida da resposta livre e pessoal. Apesar de ser história e fazer história, a fé só alcança sua plenitude quando é acolhida, cuidada e revigorada. Não basta a fé de nossos pais, cada geração deve se renovar na fé. Ela não é adesão cega e mecânica a um ser supremo e absoluto que lhe obriga a ajoelhar-se diante de seu imenso poder. Isso não é Deus, é uma aberração de Deus, um tirano.

Acho muito interessante conversar com pessoas que não acreditam em Deus. E por que digo isto? Pois quando alguns começam a dar as razões pelas quais não creem eu penso comigo mesmo: se eu achasse que Deus é assim, eu seria o primeiro a não acreditar também.

Não devemos dar por descontada a fé (cf. 6)! Cada geração, cada pessoa deve fazer a experiência pessoal de Deus, de seu amor e de sua misericórdia. E justamente por que Deus é Pai e não um tirano, Ele não nos deixa só, pois ao mesmo tempo em que a fé nasce dessa adesão pessoal não podemos ser cristãos sozinhos. “Na fé, o ‘eu’ do crente dilata-se para ser habitado por um Outro, para viver num Outro, e assim a sua vida amplia-se no Amor” (cf. 21).

Não estamos sozinhos, o Papa insiste e dedica um capítulo à dimensão eclesial da fé. Temos os sacramentos, temos os mandamentos, temos a oração do Pai Nosso, temos o magistério da Igreja, temos nossa comunidade.

Não somos apenas indivíduos, somos pessoas que vivem em relação; faz parte de nosso ser o relacionar-se, o encontrar com o outro. “A fé transmite-se, por assim dizer, sob a forma de contato, de pessoa a pessoa, como uma chama se acende noutra chama. Os cristãos, na sua pobreza, lançam uma semente tão fecunda que se torna uma árvore, capaz de encher o mundo de frutos” (cf. 52). A fé, por sua natureza, abre-se ao “nós”. Não é apenas a relação entre um “eu” do fiel e o “Tu” divino, verifica-se dentro da comunhão da Igreja (cf. 39).

Meus amigos, Deus deseja dilatar nossos corações! Neste momento histórico da Igreja, Ele nos pede, através do sucessor de Pedro, vivermos a fé numa dupla dinâmica: do encontro pessoal e da vivência eclesial.

É no reconhecimento da herança recebida que deve ser transmitida, onde iremos solidificar de modo mais pleno nossa liberdade. Não há verdadeira adesão no amor sem conhecimento e reconhecimento dos benefícios recebidos. Antes de nós, muito sangue foi derramado, muitas orações foram elevadas aos céus. A fé é dom de Deus, que vem através de nossos antepassados. E agora fica a pergunta: que fé queremos transmitir para as futuras gerações? Isso cada um de nós deve responder.

Convido nestes dias que antecedem a JMJ a intensificar nossa vida de oração. Preparemo-nos através do Sacramento da Confissão. Emociona-me ver milhares de jovens organizando não apenas eventos culturais e musicais, mas principalmente momentos de adoração, peregrinação, celebração.

Fé, Verdade e Amor

De modo magistral, o Papa faz um espetacular entrelaçamento entre fé, verdade e amor. Não há uma virtude sem a outra. Para que cada uma seja autêntica e cristã, devem estar unidas na vivência cotidiana de cada católico.

“O homem precisa de conhecimento, precisa de verdade, porque sem ela não se mantém de pé, não caminha. Sem verdade, a fé não salva, não torna seguros os nossos passos. Seria uma linda fábula, a projeção dos nossos desejos de felicidade, algo que nos satisfaz só na medida em que nos quisermos iludir.” (cf. 24).

A fé sem verdade é puro sentimentalismo. Fé não é subjetivismo, mas o dom que vem de Cristo. Fé e verdade estão intimamente entrelaçadas. A grande crise que há de fé hoje em dia é, de certo modo, uma crise da razão. Duvidamos da capacidade de conhecer e transmitir a verdade. Há uma verdade absoluta e universal? É possível conhecê-la? Tudo se reduz à mera conformação do sujeito com suas próprias convicções? Defender uma verdade absoluta não seria fundamentar posições totalitárias e fundamentalistas?

“Na cultura contemporânea, tende-se frequentemente a aceitar como verdade apenas a da tecnologia: é verdadeiro aquilo que o homem consegue construir e medir com a sua ciência [...] depois haveria as verdades do indivíduo, como ser autêntico face àquilo que cada um sente no seu íntimo, válidas apenas para o sujeito, mas que não podem ser propostas aos outros com a pretensão de servir ao bem comum” (Cf.25).

A verdade é reduzida a materialismo cientificista e ao reino do individualismo subjetivista. Nesta dimensão e concepção de verdade, propor a fé como algo sobrenatural e como capacidade de criar comunhão e laços entre as pessoas parece um verdadeiro absurdo. Dentro desta perspectiva, o amor estaria conectado não com a verdade, mas com o mundo dos sentimentos. Não há dúvidas de que o amor tem a ver com o mundo de nossa afetividade, afirma o Papa, mas para abrir “à pessoa amada, e assim iniciar um caminho que faz sair da reclusão do próprio eu e dirigir-se para a outra pessoa, a fim de construir uma relação duradoura”, é necessário que o amor esteja unido à verdade, pois só assim pode perdurar no tempo, e não estar a mercê do vai e vem dos sentimentos.

Não há verdade sem amor e nem amor sem verdade. A primeira realidade seria fria e impessoal, não atingiria o âmago da pessoa humana; a segunda reduziria o amor a sentimentos e como este seria instável, frágil e descartável, como muitas coisas o são em nossa sociedade hoje em dia. Em ambos, o outro, o próximo, deixaria de ser sujeito digno de ser amado pelo fato de ser um ser humano com valores e dignidade, e o reduziríamos a simples objeto, coisa, instrumento, meio para alcançar fins egoístas ou imaturos. Certas situações fazem parecer que em algumas comunidades podemos acabar afastando o outro por causa de seus pecados. Somos incapazes de separar o pecado do pecador. E descartamos e abandonamos à própria sorte aqueles que no momento mais precisariam de um anúncio querigmático.

A fé ilumina a verdade, pois “ela dá uma nova dimensão a todas as nossas relações humanas, que podem ser vividas em união com o amor e a ternura de Cristo.” (cf.32).

Desse modo, a fé não pode ser intransigente e arrogante. Ela respeita o tempo do outro. Não somos os donos da verdade, mas apenas seus defensores e promotores. Quando promovo a verdade denegrindo a caridade, estou deformando o corpo de Cristo, pois não há verdade sem caridade e vice-versa. “Longe de nos endurecer, a segurança da fé nos põe a caminho e torna possível o testemunho e o diálogo com todos.” (cf.34).

A fé unida ao amor não é alheia ao mundo material. Ela nos impele a caminhar no caminho da promoção do bem, pois é próprio da luz irradiar, iluminar o que está em volta. A fé se apresenta como um tesouro para a promoção da humanidade e como patrimônio do bem comum. A fé não é alienação, mas promoção de uma humanidade mais completa e verdadeira.

Depois desta Jornada tenho apenas uma convicção: não podemos ser os mesmos. Deus nos dá oportunidade de ver seus sinais em nossa história de tal forma que o Senhor nos concede avivar a chama da esperança que deve estar presente em nossos olhos. Não podemos ser os mesmos. Se já temos uma caminhada na Igreja, Cristo nos convida a uma maior entrega.

Devemos ser em cada momento de nossa vida sinais vivos de que Deus existe. Não há melhor demonstração da existência de Deus do que um católico que vive com coerência a própria fé, que transpira o amor de Cristo e que com um sorriso é capaz de romper barreiras.

A fidelidade aos preceitos e mandamentos só terá uma efetiva transformação na vida pessoal quando formos capazes de transformar nossa fé em encontro com Cristo e com o outro. Será impossível convencer a outro que Deus existe se nós somos os primeiros a não arregaçar as mangas, e somos incapazes de entrar na academia do perdão e da escuta.

Muitas vezes, somos velozes em perceber os limites, imperfeições e quedas do nosso irmão, mas somos lentos em estender a mão, perdoar e ajudar a levantar. Falamos tanto em misericórdia, mas ao final, diante do pecado do próximo, somos os primeiros a fugir como se fossem leprosos capazes de contaminar nossa vida “santa”. Não tenhamos medo de estar próximo de quem necessita.

E recordemos que a experiência dos filhos de Deus é o levantar-se sempre com mais força e entusiasmo. Sempre aparecem os desafios, os problemas, as cruzes e as dificuldades!

Tenham confiança em Cristo, permitam que o amor de Cristo possa amadurecer e engradecer suas almas.

É ai, meus amados jovens, onde existe a miséria espiritual e material, as periferias do mundo, que vocês são enviados e devem estar mais presentes. A fé é dom de Deus, disso não temos dúvidas, mas se não se realiza em obras concretas não seremos verdadeiramente cristãos, mas apenas uma caricatura deformada daquilo que Deus tanto sonha e deseja para nós.

Em poucas semanas, acontecerá um grande milagre no Rio: milhares de jovens estarão caminhando pelas ruas, participando de eventos e exalando o perfume da alegria de Cristo. Que este perfume possa permanecer e impregnar nossa existência, e que nunca nos abandone. Tenho confiança em vocês! Muito obrigado, pois o testemunho de vocês ajuda a fortalecer a minha fé. Caminhemos juntos!

Dom Orani João Tempesta
Arcebispo do Rio de Janeiro (RJ)

Fonte: CNBB

quinta-feira, 18 de julho de 2013

Lumen Fidei - A Luz da fé, primeira Encíclica do Papa Francisco

Lumen Fidei - A luz da fé, assim se intitula a primeira Encíclica do Papa Francisco que hoje foi apresentada em conferência de imprensa, no Vaticano. Dirigida aos bispos, sacerdotes, diáconos, religiosos e religiosas e a todos os fiéis leigos, a Encíclica – explica o Papa Francisco - já estava "quase completada" por Bento XVI. Àquela "primeira versão" o atual Pontífice acrescentou "ulteriores contribuições". A finalidade do documento é recuperar o caráter de luz que é específico da fé, capaz de iluminar toda a existência humana.Quem acredita nunca está sozinho, porque a fé é um bem comum que ajuda a edificar as nossas sociedades, dando esperança. E’ este é o coração da Lumen fidei. Numa época como a nossa, a moderna - escreve o Papa - em que o acreditar se opõe ao pesquisar e a fé é vista como um salto no vazio que impede a liberdade do homem, é importante ter fé e confiar, com humildade e coragem, ao amor misericordioso de Deus, que endireita as distorções da nossa história.

Testemunha fiável da fé é Jesus, através do qual Deus atual realmente na história. Como na vida de cada dia confiamos no arquiteto, o farmacêutico, o advogado, que conhecem as coisas melhor que nós, assim também para a fé confiamos em Jesus, um especialista nas coisas de Deus. A fé sem a verdade não salva, diz em seguida o Papa – fica a ser apenas um bonito conto de fadas, sobretudo hoje em que se vive uma crise de verdade, porque se acredita apenas na tecnologia ou nas verdades do indivíduo, porque se teme o fanatismo e se prefere o relativismo. Pelo contrário, a fé não é intransigente, o crente não é arrogante: a verdade que vem do amor de Deus não se impõe pela violência, não esmaga o indivíduo e torna possível o diálogo entre fé e razão.

Se torna, portanto, essencial a evangelização: a luz de Jesus brilha no rosto dos cristãos e se transmite de geração em geração, através das testemunhas da fé. Mas de uma maneira especial, a fé se transmite através dos Sacramentos, como o Batismo e a Eucaristia, e através da confissão de fé do Credo e a Oração do Pai Nosso, que envolvem o crente nas verdades que confessa e o fazem ver com os olhos de Cristo. A fé é uma, sublinha o Papa, e a unidade da fé é a unidade da Igreja. Também é forte a ligação entre acreditar e construir o bem comum: a fé torna fortes os laços entre os homens e se coloca ao serviço da justiça, do direito e da paz. Essa não nos afasta do mundo, muito pelo contrário: se a tirarmos das nossas cidades, ficamos unidos apenas por medo ou por interesse. A fé, pelo contrário, ilumina a família fundada no matrimônio entre um homem e uma mulher; ilumina o mundo dos jovens que desejam “uma vida grande", dá luz à natureza e nos ajuda a respeitá-la, para "encontrar modelos de desenvolvimento que não se baseiam apenas na "utilidade ou lucro, mas que consideram a criação como um dom”. Mesmo o sofrimento e a morte recebem um sentido do fato de confiarmos em Deus, escreve ainda o Pontífice: ao homem que sofre o Senhor não dá um raciocínio que explica tudo, mas a sua presença que o acompanha. Finalmente, o Papa lança um apelo: "Não deixemos que nos roubem a esperança, não deixemos que ela seja frustrada com soluções e propostas imediatas que nos bloqueiam o caminho para Deus”.

Fonte: CNBB